* Exposição no âmbito do 22.º Circular Festival de Artes Performativas *
Nesta exposição, apresento doze anos da minha prática em vídeo, tanto em formato digital como em Super 8. Da minha prática do movimento do corpo e da dança ao movimento das imagens, o que sempre me interessa é o ritmo, o fluxo, a percepção do tempo e a influência mútua entre o ser humano e a natureza.
– Cecilia Bengolea
Na Galeria Solar, em Vila do Conde, a artista Cecilia Bengolea apresenta seis obras em vídeo que, de certa forma, condensam a sua maneira de pensar-fazer. Abrangem uma década de trabalho, de Bombom’s Dream (2016) a I 600 fili Spin and Break Free (2026).
Há dois traços fundamentais no trabalho de Cecilia: a dança e a forma como a dança torna possível uma ligação entre corpos, suor, emoções e pensamentos que é radicalmente diferente daquela que estabelecemos através da linguagem falada ou de qualquer outra linguagem artística. Seria muito difícil descrever aquilo que todas as obras têm em comum, mas há uma característica que partilham e que é relevante em toda a sua produção em vídeo e em dança: a intensidade.
As obras são concebidas para que tomemos consciência das muitas camadas de que o real é composto. Momentos históricos que falam de modos de produção; corpos que executam todo o tipo de tarefas, que sofrem todo o tipo de dores, algumas visíveis e outras invisíveis. Os seus vídeos estão também frequentemente cheios de meteorologia, de um tempo que dança com os corpos que a chuva ou o sol abraçam. A secura dança, a chuva dança, a classe dança, a pobreza dança, a nostalgia dança, tal como dança uma tristeza profunda, e também a alegria.
Pensemos por um minuto: o autoerotismo é bastante característico do nosso tempo. O início do século XXI tornou evidente que estamos a ficar cada vez mais sós. As estruturas capitalistas conceberam as suas ferramentas de entretenimento tendo isto em mente, talvez até de uma forma não inteiramente consciente. Os dispositivos estão equipados com câmaras para filmar e transmitir aquilo que fazemos, completamente sós. Transmitimos a partir de um pequeno espaço pessoal e vemos essa transmissão através desse dispositivo estreito, o telemóvel, também ele estreito como um corredor que liga todas estas infinitas salas cheias de pessoas solitárias.
As plataformas de streaming e os telemóveis também tornaram obsoleta, ou pelo menos menos desejável, a velha ideia de vermos um filme juntos. Tudo aponta para a solidão, uma solidão que ninguém contesta enquanto alguns oligarcas tecnológicos propõem novas formas de sublinhar a obsolescência da espécie humana. Em breve, se lhes dermos ouvidos, os seres humanos e os seus corpos humanos não servirão para nada.
Provavelmente, aquilo de que mais gosto no trabalho de Cecilia Bengolea é que tudo nele parece gritar perante este argumento: «Vão para o inferno!» Sim, o seu trabalho é um verdadeiro despertar dos corpos. Um despertar para as emoções frenéticas que sentimos quando encontramos os outros e estamos com eles de uma forma relevante e significativa.
Os seus corpos confiam. É possível sentir essa confiança através do ecrã; é possível ver como ela consegue filmar de tal maneira que os nossos corpos querem, querem realmente, desenvolver uma resposta àqueles corpos. De repente, esse corredor infinito dos meios digitais transforma-se num enorme salão, que habitamos e desfrutamos juntos. É difícil ver os seus filmes sem sentir vontade de nos mexermos.
Este magnetismo é político. Não é apenas uma característica da sua prática; é também uma aspiração do seu pensamento. Exige que permaneçamos atentos ao essencial. Saiam do ecrã, mexam-se e toquem nos corpos que vos rodeiam. Porquê? Porque, ao construirmos um sentido de união, seremos capazes de contestar.
Sim, estamos agora bloqueados. Sentimo-nos congelados ou estranhamente radicais e subculturais quando desenvolvemos uma visão conservadora da vida. Mas até as vozes e os apelos à culpa e ao ódio seriam vistos de outra forma se fôssemos capazes de nos sentir parte de alguma coisa.
Na verdade, a união é o antídoto, e os seus filmes dizem-no.
Vão para o inferno e mexam-se.
— Chus Martínez